
Não sei exatamente como começar esse texto, e muito menos se você vai chegar a ler ele. Se ler, não vai fazer a mínima diferença. Se não ler, menos ainda. Mas eu não vou escrevê-lo pra você, vou escrever por mim. Pela memória que ainda é recorrente, por ter acordado hoje lembrando do sonho que tive, e que você estava nele. Meu Deus, é tão raro eu lembrar dos sonhos que tenho. Em um deles, a gente estava bem. Muito bem. No outro, eu te encontrava sem querer no meio da rua, estacionava meu carro em cima da calçada, e corria até você. Não sei se por medo, ou por raiva, você se afastava, e eu começava a te chamar e pedia pra conversar. Então, depois de insistir muito, você parou pra me ouvir. Eu disse que a gente precisava conversar sobre tudo que aconteceu, mas que tinha que ser sob a minha perspectiva. Você nunca soube meu lado da história. E acredito que nunca entendeu direito o motivo de tantas coisas terem acontecido de uma hora pra outra. Olha só, queria ser a pessoa mais madura do mundo, mas só agora com vinte e sete anos, eu descobri que a gente não pode se manter em silêncio em hipótese alguma. O silêncio é o veneno de qualquer relação, seja ela amorosa, profissional. Eu sempre esperei que os outros adivinhassem exatamente o que eu queria, sentia, do contrário eu acabava me isolando. Eu achava que todos tinham a obrigação de ler minha mente, de saber exatamente o que se passava comigo sem que eu precisasse abrir a boca. Uma estupidez absurda, eu sei. Mas antes não sabia. Quantos relacionamentos meus não foram prejudicados por isso. Quantas amizades morreram na praia porque eu não disse que estava chateado, aborrecido. Quantos empregos não perdi por medo de falar algo. Mas de hoje em diante, se eu perder alguma coisa, vai ser por ter falado demais. Não quero mais morrer engasgado, nem executar minhas relações futuras com silêncios. Eu acordei, e no sonho eu não tinha te falado o que eu queria, mas se ele tivesse continuado, certamente seria isso: desculpa, desculpa por não ter sido um livro aberto, por não ter colocado as cartas na mesa, por não ter dito como eu me senti mal em alguns momentos, e por ter feito você se sentir mal também por algo que você nem sabia. Eu que condeno tanto pessoas superficiais, nunca achei que fosse me considerar uma. Eu que sempre tive medo de mergulhar de cabeça nos outros e me machucar, acabei sendo mar raso sem boia de salva-vidas e ainda assim sempre te pedindo pra pular, pra ir mais fundo, mas não havia profundidade nenhuma em mim. É claro, não sou o único culpado de tudo. Nunca somos. Mas eu precisava escrever minha parte e assinar embaixo, ainda que seja tarde demais, ainda que não faça mais sentido pra ti. Infelizmente, não existe algo que eu beba que vá me fazer esquecer de tudo. Duvido que terapia me ajude. Mas quem disse que a gente esquece? Faz parte da gente. Bom ou ruim, corre nas veias, não tem como ser arrancado como uma folha de caderno. Às vezes, parece aquelas doenças sem cura. Daquelas que você precisa tomar medicamento todos os dias. Até o último dia de vida. Hoje foi um desses dias que a gente esquece de tomar o remédio e dói tudo. Eu não sabia como começar esse texto, mas sei exatamente como finaliza-lo: nunca engula as palavras, vomite-as.
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