quarta-feira, 15 de abril de 2020

Você achou que era pra sempre.

Você nem imaginou que tudo acabaria, quando vocês estavam sentados naquele banco de praça planejando uma viagem pro Espirito Santo. Você se sentia tão seguro, tinha certeza absoluta que se você fosse jogado lá de cima, ele seria seu paraquedas que não deixaria você se estatelar todo no chão. Então, você se jogou. Se jogou com a coragem de alguém que entra no Space Loop, mesmo sabendo que o brinquedo pode nem ser tão seguro assim. Se jogou com a coragem de alguém que tem aracnofobia, mas resolve matar uma aranha pela primeira vez. Você lembra daquela vez que vocês pararam e ficaram olhando para uma casa qualquer. Começaram a imaginar como seria a casa de vocês. Jardim. Cachorro. Varanda. Crianças. Netflix. Quem cozinharia. Quem lavaria a louça. Qual a cor da parede da sala. TV grande no quarto. Você não imaginou que teria que recomeçar em poucos dias. Que teria de voltar a sua velha rotina de antes. Mesmo sabendo que ninguém volta. Agora você tem de conviver com mais essa memória. É uma nova rotina, na verdade. Uma vez que entra algum personagem novo na história, tudo muda. Inclusive a gente. É hora de erguer a cabeça. Se não era pra ser, paciência. Você achou que era pra sempre?

Tudo bem, eu também achei.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A gente se fala.

Esse é um dos maiores clichês de um final de encontro. Pode significar que você nunca mais irá ver a pessoa novamente, ou até que, em último caso, você a veja, mas sem uma data definida. Por alguma razão, a outra pessoa não quer te ver tão cedo. Talvez vocês não estejam na mesma sintonia. Terminar um encontro sem dizer uma palavra seria um pouco estranho, o "a gente se fala" entra na história pra dar um toque de esperança, mas não se iluda, é a mesma coisa que levar um fora. Não existe "a gente se fala" quando o outro está interessado em você. Marcam-se datas, horários, no sábado eu não posso, mas domingo estarei livre. Todo mundo sabe como anda sua agenda, os dias vagos, os dias que podem ser preenchidos. A gente vai se falando, mas no dia seguinte ninguém se fala, que estranho. Respostas vagas não merecem expectativas. Pessoas vagas não merecem uma chance. Elas estão num momento delicado, a sós e muito a vontade, diga-se de passagem, com a própria solidão. Vocês dois juntos alguns minutos atrás era só diversão, uma saída de leve da zona de conforto, um dia atípico. No dia seguinte, tudo volta ao normal. Você não o procura, porque agora é a pessoa que espera ser procurado. Ele não te procura, porque bem, sejamos sinceros: você não é o que ele busca no momento. Não foi seu jeito de ser, sua risada, seu jeito de fazer carinho no cabelo dele, pode ter certeza disso. Ele só não está preparado ou a procura de um relacionamento, e tá tudo bem. Ele não forçou algo, nem mentiu quando disse "a gente se fala". Provavelmente vocês vão se falar de novo, só não no cenário que você havia criado.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

GAIOLA.

Não é lindo? Me ver preso aqui e saber que eu não posso fazer nada.
Todo dia sofrendo, me cortando, procurando um jeito de sair.
Não é sublime estar aí fora, enquanto eu passo fome aqui dentro, beliscando pedaços da minha própria carne, até que não me reste mais nada.
É uma sinfonia pros teus ouvidos, escutar meus gritos a noite inteira, assistir meu corpo definhar com os passar dos segundos.
Não é maravilhoso me dar boa noite todos os dias, jogar um lençol em cima de mim e fingir que eu não existo?
Eu sigo exausto, me esforçando todos os dias para sorrir, andando em círculos, rindo e chorando, tudo ao mesmo tempo, como se houvessem dois de mim.
Como se isso fosse possível, eu mal consigo permanecer de pé.
A voz que começa a sair fraca.
O coração que lateja, não bombeia mais sangue.
A alma fraca.
Mais uma noite escura, e lá fora o sol brilhando.
É inútil te pedir pra sair daqui,
admita:
o teu maior prazer é me ter dentro dessa gaiola.

domingo, 18 de agosto de 2019

FODA-SE O QUE PENSAM DE VOCÊ.

Quantas milhões de vezes não deixamos de fazer alguma coisa por medo do que os outros vão falar. Por insegurança, por medo de parecer ridículo. Desate o nó que te prende ao que as outras pessoas pensam de você. No fundo, elas só queriam ter a mesma coragem que você tem. Não deixe que elas te infeccionem com a mediocridade que escorre pela pele delas. Você não merece se sujar com tão pouco. A vida delas é pequena, é um cisco, e o ápice do dia dessas pessoas é apontar o dedo para as outras. Dizer o que elas podem, e o que elas não podem fazer. Tome distância, quebre o laço, quem precisa aprender a se relacionar com lixo é o gari, não você. Arremesse essas pessoas num grande saco azul e deixe o caminhão as levarem pra bem longe. Ser quem você é de verdade é um desafio, não vou mentir, mas é absurdamente libertador. É finalmente se olhar de verdade no espelho, e começar a gostar daquilo que você está vendo. Sim, agora aquela pessoa ali é você, e não as opiniões que tentaram construir em cima de ti. Você não é as críticas que recebe, você é os elogios, até aqueles que não são dado de bom grado. A gente nunca acredita que é lindo o suficiente, mesmo que ouça isso de uma dúzia de pessoas, mas basta uma achar que a gente é ridículo pra que um buraco se abra e sugue nosso corpo. Comece a saltar por cima desses buracos, ou melhor, comece a não permitir que esses buracos se abram, você só precisa cortar a língua dessas pessoas de uma vez por todas.

sábado, 11 de agosto de 2018

PARANOIA.

É não saber mais o que pensar. é sentir o cérebro chacoalhar sem poder fazer nada a respeito. é ter mil teorias e nenhuma delas conseguir fazer muito sentido. ou todas elas fazerem sentido de uma vez só. é começar a achar que devemos desistir. é querer tirar satisfação e desistir logo em seguida por medo de parecer louco. é colocar a cara no travesseiro e gritar, pra logo em seguida se olhar no espelho do banheiro e pedir calma pra si mesmo. é sentir uma angústia no peito e não saber de onde vem. é sentir vontade de chorar e segurar as lágrimas porque não se tem um diagnóstico exato do motivo desse choro querer brotar. é estar se afogando em terra viva. é dar um soco na parede e assistir a mão sangrar sem sentir um pingo de dor. é se dar conta que não teve soco nenhum. é ouvir o barulho do ventilador e ele não estar ligado. então eu o ligo na tomada e ouço o som do motor do carro. não sei quem está dirigindo e nem o motivo de estar vindo na minha direção. só tenho quase certeza de uma coisa agora: eu vou ser atropelado.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

SE A GENTE TIVESSE SE CONHECIDO ANTES.

se você tivesse me conhecido há alguns anos atrás, provavelmente estaria encontrando bilhetes românticos no bolso da sua calça. eu estaria te escrevendo mais uma carta, planejando uma surpresa, quem sabe até um pedido de namoro com balões em formato de coração, uma música romântica do Bruno Mars e um corredor de velas, desses pedidos que a gente hoje em dia só vê em foto nas redes sociais, porque na vida real se tornaram uma raridade. se você tivesse me conhecido há alguns anos atrás, teria encontrado alguém menos reprimido, menos desconfiado, menos desacreditado no amor. teria encontrado alguém confiante, com um sorriso largo no rosto, como de quem ainda se imagina segurando a mão de outra pessoa numa tarde na varanda. almoço em família. viagens. planos e mais planos. uma casa grande. quintal. cachorros. e um espaço dedicado só pro jardim. você teria se apaixonado logo de cara pela minha risada alta e meu humor brega, pela minha cara amassada ao acordar, ou pela forma como trato os outros sempre com educação e gentileza. você provavelmente teria me encontrado qualquer dia na cozinha tentando fazer a sua receita preferida. as mãos com cheiro de alho. os olhos lacrimejando por conta da cebola. um resultado final que não sairia como planejado, mas que com toda certeza você teria amado. amado principalmente o meu esforço. mas você demorou um pouco além da conta. nossos caminhos se cruzaram alguns anos depois. depois de alguns furacões, tsunamis, e outras coisas que prefiro não comentar agora. você chegou depois de algumas traições, decepções, e gente que foi embora sem sequer dizer a razão. como uma gripe que começa forte e no dia seguinte desaparece do nada, sem explicação. você também está no mesmo barco que o meu, talvez até mais desacreditado, e eu tô tendo que travar uma batalha contra mim mesmo para resgatar a pessoa que eu era há alguns anos atrás, só pra tentar fazer você se apaixonar de novo (e vice-versa), mesmo que agora isso pra ti pareça algo irreal. eu tô tentando resgatar o cara que foi estraçalhado por mil navalhas mesmo que isso signifique correr o risco de ser estraçalhado de novo, eu tô tentando me tirar com vida do fundo do mar, fazendo respiração boca-a-boca, massagem cardíaca, porque em você eu vi uma faísca de que talvez isso valha a pena.

sábado, 4 de agosto de 2018

AQUILO QUE NÃO ME DEIXA MORRER.

A palavra fez por mim o que ninguém nunca fez na vida. Eu escrevo desde que me entendo por gente. Começou com cartinhas apaixonadas no ensino fundamental, bilhetes anônimos deixados na mesa da menina mais bonita da sala, que no futuro seriam destinados a amores - em sua maioria rasos - por garotos, e não mais garotas. Um dia eu percebi que escrever não era só um hobbie, algo que você faz quando aparece ali trinta minutinhos de descanso. Não é como jogar videogame e esquecer os nomes dos personagens horas depois. Escrever é se doar. É colocar pra fora aquilo que pode acabar sufocando, matando, levando a gente a tomar um monte de pílula, se automutilar ou se jogar na frente de um carro. O que as palavras fizeram por mim foi me dar abrigo, uma casa na árvore. Foi fazer com que eu me sentisse confortável pra ser eu mesmo, despido de qualquer vontade de querer agradar alguém do outro lado da mesa, ou fazer com que alguém se apaixonasse perdidamente por mim. Porque quando eu começo a escrever parece que as palavras só tem olhos pra mim. Parece que o mundo inteiro deixou de existir e só o que eu sinto agora é o que realmente importa. Parece que eu valho a pena. Parece que eu sou mais do que eu penso que sou. Porque lá fora... lá fora as pessoas só querem desabafar, receber conselhos, ajuda. Mas nenhuma quer te ouvir atentamente, oferecer uma solução ou um abraço que seja. Estamos todos de frente pra um espelho e só nos preocupamos com aquilo que estamos vendo. É verdade que eu deixei de dormir muitas vezes pra escrever pra alguém. Muitas dessas cartas sequer viram o remetente. Não tive coragem de entregar. Ou melhor, tive medo de entregar e não receber a reação que eu esperava. Na maioria das vezes, me agradeci por não ter entregue. Eu despejo palavras como quem vomita depois de uma noite intensa de bebida alcoólica. Vomitar é a unica coisa que vai me fazer melhorar e eu acabo chegando a conclusão de que sempre estou e vou estar bêbado.