A palavra fez por mim o que ninguém nunca fez na vida. Eu escrevo desde que me entendo por gente. Começou com cartinhas apaixonadas no ensino fundamental, bilhetes anônimos deixados na mesa da menina mais bonita da sala, que no futuro seriam destinados a amores - em sua maioria rasos - por garotos, e não mais garotas. Um dia eu percebi que escrever não era só um hobbie, algo que você faz quando aparece ali trinta minutinhos de descanso. Não é como jogar videogame e esquecer os nomes dos personagens horas depois. Escrever é se doar. É colocar pra fora aquilo que pode acabar sufocando, matando, levando a gente a tomar um monte de pílula, se automutilar ou se jogar na frente de um carro. O que as palavras fizeram por mim foi me dar abrigo, uma casa na árvore. Foi fazer com que eu me sentisse confortável pra ser eu mesmo, despido de qualquer vontade de querer agradar alguém do outro lado da mesa, ou fazer com que alguém se apaixonasse perdidamente por mim. Porque quando eu começo a escrever parece que as palavras só tem olhos pra mim. Parece que o mundo inteiro deixou de existir e só o que eu sinto agora é o que realmente importa. Parece que eu valho a pena. Parece que eu sou mais do que eu penso que sou. Porque lá fora... lá fora as pessoas só querem desabafar, receber conselhos, ajuda. Mas nenhuma quer te ouvir atentamente, oferecer uma solução ou um abraço que seja. Estamos todos de frente pra um espelho e só nos preocupamos com aquilo que estamos vendo. É verdade que eu deixei de dormir muitas vezes pra escrever pra alguém. Muitas dessas cartas sequer viram o remetente. Não tive coragem de entregar. Ou melhor, tive medo de entregar e não receber a reação que eu esperava. Na maioria das vezes, me agradeci por não ter entregue. Eu despejo palavras como quem vomita depois de uma noite intensa de bebida alcoólica. Vomitar é a unica coisa que vai me fazer melhorar e eu acabo chegando a conclusão de que sempre estou e vou estar bêbado.
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