quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CHAMADA DE EMERGÊNCIA.

Eu não esperava perder meus pais tão cedo. Eu não estava preparado, provavelmente nunca estaria, eu sei, mas sempre achei que fosse demorar, que eu já teria saído de casa, já estaria casado, sei lá. No mesmo ano em que eu perdi um deles, o outro se foi. Eu havia sequer superado a primeira pancada, quando veio a segunda no mesmo lugar. É incrível como há tantas formas de morrer, mas me vem pouca coisa na cabeça quando penso nas formas de ser feliz. Minha mãe me ensinou a ser educado. Fez com que eu nunca deixasse de dar bom dia pra alguém, ou faltasse com respeito a qualquer pessoa. Ela fez com que eu tratasse todas as pessoas de igual para igual. Ela nunca me ensinou a cozinhar porque ninguém podia entrar na cozinha para fazer algo a não ser ela mesma. Depois de grande eu tive que aprender sozinho, foi o jeito. A gente não tinha uma relação muito aberta, eu e minha mãe. Nunca apresentei nenhum namorado pra ela, eram apenas amigos. Amigos que frequentavam muito nossa casa. Sei que ela sempre soube distinguir quem era mesmo apenas amigo, ou quem era algo mais, mas ela nunca comentou nada comigo a respeito. A gente não concordava sobre muita coisa, e sempre um tinha a opinião contrária do outro, mas quando eu adoecia era ela quem trazia sopa no meu quarto. Quando eu passo mal do estômago, ainda consigo ouvir ela perguntando se eu estou vomitando no banheiro, que eu preciso ir ao meu médico ver isso porque não é normal. Bem, não era normal mesmo, mas era sempre por conta de algo que eu não podia comer, mas comia. Eu era teimoso, digo, eu sou teimoso, é um dos meus inúmeros defeitos. Meu pai. Foram tantas viagens de carro pra escola, pra faculdade, pro trabalho. Eu era tão mimado. Ele fazia qualquer coisa por mim. Eu nunca amadureci muito, porque eu sempre tive pais muito presentes. Eu sei que deveria soar como uma coisa maravilhosa - e era - mas, isso acabou me deixando despreparado pra muita coisa, como por exemplo, ter que morar sozinho. Eu não sabia fazer muita coisa. Nem mesmo lavar uma roupa. Meu pai tentou milhões de vezes se conectar comigo, mas eu sempre fui muito fechado. Acho que desde que eu contei que eu era gay, eu me tranquei em uma concha e não consegui mais sair dela. Os relacionamentos que eu tive também não ajudaram muito nisso. Quando eles se foram, eu inclusive estava namorando alguém que não aguentou o meu luto e me largou. Eu chorava muito, e isso não tinha passado nem três meses. Como que alguém que dizia gostar tanto de mim não conseguiu aguentar? Foi quando eu fiquei completamente sozinho, e eu lembrei que as únicas pessoas que poderiam perguntar se estava tudo bem não estavam mais ali comigo. Minha chamada de emergência eram eles dois. Se algo acontecer comigo, se eu sofrer um acidente, quem vai correr pra me ajudar? Senhor, tentamos nos números que estão cadastrados no sistema, mas ambos estão dando na caixa postal, existe outro número que podemos ligar?

Não.

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